Autor: Carlos Drummond de Andrade
Biografia: Nasceu em Minas Gerais, Itabira. Formado em farmácia, com Emílio Moura e outros companheiros, fundou "A Revista", para divulgar o modernismo no Brasil. Em 1925, casou-se com Dolores Dutra de Morais, com quem teve dois filhos. É dedicado o poema "O que viveu meia hora" ao seu filho Carlos Flávio, que viveu apenas meia hora. Faleceu em 1987 no Rio de Janeiro, doze dias após sua filha.
Crônica: Margarida
A garota em êxtase brandiu o postal que recebera do namorado em excursão na Grécia :
- Coisa mais linda! Olha só o que ele escreveu: "Eu queria desfolhar teu coração como se ele fosse a mais margarida de todas as margaridas. "Marquinhos é genial, o senhor não acha?
- Pode ser que seja, não conheço Marquinhos. Se bem que antes da era Pierre Cardin, genial era Dante, Da Vinci, Einstein, outros assim. Mas essa frase não é de Marquinhos.
- Não é de Marquinhos?! Tá com a letra dele, assinada por ele.
- Estou vendo que assinou, mas é de Darío.
- Quem? O Darío, do Atlético Mineiro? Sem essa.
- Não minha florzinha, Darío, Rubén Darío, o poeta da Nicarágua.
- Não conheço. Então Rubén Darío falou para Marquinhos e Marquinhos achou bacana e pediu emprestado a ele?
- Tenho a impressão que o Marquinhos não pediu nada emprestado a Rubén Darío. Tomou sem consultar.
- Como é que o senhor sabe?
- É muito difícil consultar o Darío.
- Por quê? Ele não dá bola para gente? Não gosta da mocidade? É careta?
- Não é nada disso. O Darío não é encontrado em parte alguma.
- Ah, ele gosta de bancar o invisível, né?
- Não creio que goste, mas é exatamente o caso dele: invisível.
- Não dá para entender.
- Vai entender logo. Ele morreu em 1916.
- Ah! E como é que o Marquinhos descobriu essa margarida, me conte!
- Simples. Leu num livro de poemas de Rubén Darío.
- Marquinhos não é ligado a leitura. Duvido.
- Se não leu no livro, leu em alguma revista, em alguma parte.
- Hã...
Ficou tão triste- os olhos, a boca, a testa franzida- que achei de meu dever confortá-la:
- Que importância tem isso? A frase é de Darío, é de Marquinhos, é de toda pessoa sensível, capaz de assimilar o coração à margarida... Desculpe: à margarida.
Muxoxo:
- Se é de todos, não é de ninguém, não vale nada.
- Pelo contrário. Fica valendo mais, torna-se sentimento universal.
- Ah, o senhor está por fora. Eu queria a margarida só para mim. Copiada não tem graça. A graça era imaginar Marquinhos, muito sério, desfolhando meu coração transformado em margarida, para saber se eu gosto dele, um pouquinho, bastante, muito loucamente, nada. E a margarida sempre com uma pétala escondida por baixo da outra, entende? Para ele não ter certeza, porque essa certeza eu não dava... Era gozado.
- Continue imaginando.
- Agora não dá pé. Marquinhos roubou a margarida, quis dar uma de poeta. Não colou.
- Espere um pouco. Eu disse que a margarida era de Rubén Darío? Esta cabeça! Esquece, minha filha. Agora me lembro que Rubén Darío nem podia ouvir falar em margarita, começava a espirrar, a tossir, ficava sufocado, uma coisa horrível. Alergia- que no tempo dele ainda não estava batizada. Pois é. Garanto a você, posso jurar que a margarida não é de Darío.
- De quem é então?
- De Marquinhos, ué.
- Tem certeza que nunca ninguém antes de Marquinhos escreveu ä mais margarida de todas as margaridas"? o senhor lê milhões, pode me responder. Tem certeza?
- Absoluta. Marquinhos é genial, reconheço. Mas, por via das dúvidas, continue escondendo uma pétala de reserva, sim?
- Pode deixar por minha conta. Puxa, quase que eu parava de transar com o Marquinhos por causa do senhor. Agora tá legal, tchau, vovô!
Vovô: foi assim que ela me agradeceu a mentira generosa, a bandida.
- Coisa mais linda! Olha só o que ele escreveu: "Eu queria desfolhar teu coração como se ele fosse a mais margarida de todas as margaridas. "Marquinhos é genial, o senhor não acha?
- Pode ser que seja, não conheço Marquinhos. Se bem que antes da era Pierre Cardin, genial era Dante, Da Vinci, Einstein, outros assim. Mas essa frase não é de Marquinhos.
- Não é de Marquinhos?! Tá com a letra dele, assinada por ele.
- Estou vendo que assinou, mas é de Darío.
- Quem? O Darío, do Atlético Mineiro? Sem essa.
- Não minha florzinha, Darío, Rubén Darío, o poeta da Nicarágua.
- Não conheço. Então Rubén Darío falou para Marquinhos e Marquinhos achou bacana e pediu emprestado a ele?
- Tenho a impressão que o Marquinhos não pediu nada emprestado a Rubén Darío. Tomou sem consultar.
- Como é que o senhor sabe?
- É muito difícil consultar o Darío.
- Por quê? Ele não dá bola para gente? Não gosta da mocidade? É careta?
- Não é nada disso. O Darío não é encontrado em parte alguma.
- Ah, ele gosta de bancar o invisível, né?
- Não creio que goste, mas é exatamente o caso dele: invisível.
- Não dá para entender.
- Vai entender logo. Ele morreu em 1916.
- Ah! E como é que o Marquinhos descobriu essa margarida, me conte!
- Simples. Leu num livro de poemas de Rubén Darío.
- Marquinhos não é ligado a leitura. Duvido.
- Se não leu no livro, leu em alguma revista, em alguma parte.
- Hã...
Ficou tão triste- os olhos, a boca, a testa franzida- que achei de meu dever confortá-la:
- Que importância tem isso? A frase é de Darío, é de Marquinhos, é de toda pessoa sensível, capaz de assimilar o coração à margarida... Desculpe: à margarida.
Muxoxo:
- Se é de todos, não é de ninguém, não vale nada.
- Pelo contrário. Fica valendo mais, torna-se sentimento universal.
- Ah, o senhor está por fora. Eu queria a margarida só para mim. Copiada não tem graça. A graça era imaginar Marquinhos, muito sério, desfolhando meu coração transformado em margarida, para saber se eu gosto dele, um pouquinho, bastante, muito loucamente, nada. E a margarida sempre com uma pétala escondida por baixo da outra, entende? Para ele não ter certeza, porque essa certeza eu não dava... Era gozado.
- Continue imaginando.
- Agora não dá pé. Marquinhos roubou a margarida, quis dar uma de poeta. Não colou.
- Espere um pouco. Eu disse que a margarida era de Rubén Darío? Esta cabeça! Esquece, minha filha. Agora me lembro que Rubén Darío nem podia ouvir falar em margarita, começava a espirrar, a tossir, ficava sufocado, uma coisa horrível. Alergia- que no tempo dele ainda não estava batizada. Pois é. Garanto a você, posso jurar que a margarida não é de Darío.
- De quem é então?
- De Marquinhos, ué.
- Tem certeza que nunca ninguém antes de Marquinhos escreveu ä mais margarida de todas as margaridas"? o senhor lê milhões, pode me responder. Tem certeza?
- Absoluta. Marquinhos é genial, reconheço. Mas, por via das dúvidas, continue escondendo uma pétala de reserva, sim?
- Pode deixar por minha conta. Puxa, quase que eu parava de transar com o Marquinhos por causa do senhor. Agora tá legal, tchau, vovô!
Vovô: foi assim que ela me agradeceu a mentira generosa, a bandida.
Autora: Martha Medeiros
Biografia: Nasceu no dia 20 de agosto de 1961, é colunista do jornal "Zero Hora" de Porto Alegre, e de "O Globo", do Rio de Janeiro. Casou-se com o publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas. Estudou no colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, e formou-se em 1983 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
Crônica: A dor que dó mais
Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
Autora: Mônica Martelli
Biografia: Mônica saiu de Macaé aos doze anos e foi para o Rio de Janeiro, onde começou a estudar direito. Fez um período e mudou-se para o Estados Unidos. Morou em San Francisco, Los Angeles e Nova York. De volta ao Brasil, cursou jornalismo e teatro. Tem crônicas publicadas na revistas "Criativa" e "Época". Foi casada com o produtor Jerry Marques com quem tem uma filha.
Crônica: Alta, mas insegura
A Maitê saiu de férias por duas semanas e eu fui convidada para escrever a coluna durante sua ausência. Eu respondi: 'Mas eu nunca escrevi!' Imediatamente eu pensei: 'Meu Deus, eu não acredito que eu acabei de falar isso! Como assim, eu nunca escrevi?!' Pura insegurança. Eu acabei de escrever uma peça de teatro que está fazendo muito sucesso, por isso eu fui chamada para escrever esta coluna. Não é possível que eu ainda continue com as mesmas inseguranças. Achei que, depois dessa peça, eu seria uma mulher segura para sempre. Afinal, eu tenho a obrigação de ser segura! A insegurança sempre nos leva a tomar atitudes que contrariam nossos desejos! Mas como eu já sei disso, e sei também que a palavra de ordem de quem é inseguro é FAZER, eu respondi: 'Eu nunca escrevi.... Mas eu FAÇO a coluna!'
E eu fico me perguntando desde quando sou insegura. Até os 18 anos eu nunca me dei bem com namorados. Nasci em Macaé, interior do Rio de Janeiro, e desde meus 15 anos sou uma mulher alta. Tenho 1,80 metro de altura. Ter 1,80 metro em Macaé é diferente de ter 1,80 metro em Paris. Em Paris, eu acredito que uma pessoa alta no mínimo anda empinada, com orgulho da altura que tem. Em Macaé eu me encurvava para tentar ter 1,77 metro. Ninguém era alta como eu! Passei minha vida inteira olhando para baixo. E mulher alta, se anda de cabeça reta, olhando para a frente, é metida. Mulher alta tem de andar de cabeça baixa, com o olhar de baixo para cima, para passar simpatia. A Lady Di olhava assim. Eu reparava.
Por exemplo, quando você entra numa festa, todo mundo te olha e te admira. Mas essa sensação de poderosa só dura meia hora, porque os homens nunca chegam, só olham. No meio da noite você vê as baixinhas todas se dando bem, se agarrando pelos cantos, dançando coladinho, beijando na boca. E as grandonas sozinhas, enfeitando a festa. Porque mulher alta não pode ficar encalhada, não! Todo mundo repara.
Fora que as pessoas te tratam mal. Porque acham que, por você ser alta, sua auto-estima deve ser muito alta também. É tipo assim: 'Veio alta nesta vida, então vai ouvir!'. Aí te xingam e são agressivos, com a maior naturalidade.
Há uns anos eu estava ensaiando uma peça e o iluminador, que estava marcando a luz, virou para mim e disse:
-Querida, chega um pouco para trás que eu não consigo te marcar! Tu é um poste! Enorme! Tá tapando tudo! Tapa até o cenário!!
Agora, para a gordinha que estava do meu lado, ele não falou:
-Querida, chega um pouco para o lado! Tu é uma balofa, enorme de gorda! Tapa tudo! -Não! Para ela, ele falou com toda a delicadeza: -Querida, chega um pouquinho para o lado, fofinha!
Quando eu estudava teatro, na minha turma só tinha um ator que podia ser meu par. Era o único que tinha o meu tamanho. Ele não teve escolha, teve de me aturar, querendo ou não, sendo meu par por três anos. Quando o professor passava algum exercício de casal, eu já ficava insegura: 'Ai, meu Deus, se ele pegar outra mulher eu vou sobrar!'. Eu já olhava para ele com um olhar do tipo: 'Você é meu!'.
Eu acho que os pais, quando percebem que os filhos vão ser grandes, têm de incentivar o vôlei ou o basquete. E, se o filho também for lindo, tem de ser modelo. Porque a criatura vai ouvir mesmo a vida toda: 'Você é jogadora de basquete?' 'É modelo?' 'Nossa, como você é alta!'.
Agora, há momentos em que é muito bom ser alta. Num show não precisa ficar pedindo para o namorado te colocar no ombro, desesperada, porque não consegue ver nada. Você pode dançar, charmosa, porque enxerga tudo.
Num camarote de Carnaval, é muito bom. Todo mundo está vestido igual, a mesma camiseta. Você não precisa cortar a camiseta, fazer franja, botar paetês, torcer, botar um shortinho com salto para chamar a atenção. A altura já é um adereço.
Eu ouvi que a insegurança é a nossa salvação, que ela é responsável pela nossa humildade. Realmente! Imagina se todos fossem muito seguros e confiantes todo o tempo, que coisa insuportável! Que mundo arrogante!
Bom, eu sei que na velhice a pessoa encolhe 3 centímetros. Isso quer dizer que eu vou ter o meu sonhado 1,77 metro. O problema é perder na altura e ganhar na largura!! Mas eu não quero pensar nisso agora. Eu só quero lembrar que a insegurança é necessária, e tem seu charme. Que maravilha saber que a insegurança não é tão ruim assim!
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