Autor: Henriqueta Lisboa
Título: Pérola
Poesia: Delicadeza de caule
oculta
na sombra a flor.
Um anjo
que ninguém vê
caminha
nos corredores
pé ante
pé
como
sobre tapetes
para não
despertar
Malícia
fina
dissolve
entre os dentes
a
palavra que palpitou
na
língua
mas que
ao silêncio volta
para não
melindrar.
Paciência que não engana
aquecendo sem brilho
à espera
retarda uma vez mais
a carícia
para não assustar
pérola entre pérolas
no fundo do mar.
Autor: Cecília Meireles
Título: A Bailarina
Poesia: Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mí nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem só
mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Mas depois esquece todos as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.
Autor: Henriqueta Lisboa
Título: A menina tonta
Poesia: Eu quero o arco-íris eu quero
diz a menina com fé.
(Seus olhos são duas lágrima
boiando em folha de malva.)
-O arco-íris ninguém consegue
tocar com a ponta dos dedos.
-É razão de meu suspiro
tê-lo puro intacto virgem.
-Terás um vestido novo
listrado de sete cores
cada cor de uma alegria.
-O vestido não tem asas
para passeios alados.
Quero das fitas do arco-íris
fazer os meus próprios trilhos
a sair andando ao léu
pelas varandas do céu
para conhecer países
que o mapa não existem
habitar outros planetas
mais habitáveis que este.
-Menina não sejas tonta
o arco-íris é apenas sonho
matérias de sonho é zero.
-Eu sonho por não poder
ter aquilo que mais quero
quero aquilo que não tenho
ainda que não valha nada
por não poder alcançá-la.
Se o pudesse não quisera
nem sonhara.
(Os olhos brilham que brilham
aos revérberos do arco-íris.)